Conto n.1

                Ignora a caixa de texto na tela do telefone celular: quem se importa se som alto faz mal aos ouvidos? Desde que não ouça mais uma discussão, que se danem os decibéis! Levanta-se, põe o telefone no bolso e começa a desarrumar a mesa do almoço. Talvez com o jato da torneira batendo nos pratos e copos seus ouvidos ignorem de vez a gritaria que vem do quarto dos pais. Quem fica com o quê? A ladainha de todo dia se resume a disputar quem levará cada item da casa, e quando, em meio à balbúrdia, surge o nome João Víctor, o melhor é enfiar barulho no último volume bem dentro dos ouvidos e cantar acompanhando a música, batucar no tampo da mesa ou no fundo dos pratos, encontrar alguma coisa que ocupe a meia hora entre o último gole de suco descer pela goela e as cerdas da escova de dentes se enfiarem entre os molares e pré-molares das bocas raivosas. É impossível competir com os fones de ouvido estando com a boca cheia de espuma do creme dental.
                Mas é sábado, ninguém precisa escovar os dentes às pressas para voltar ao trabalho. No relógio em cima da porta que dá para o corredor, quinze para uma. A pia já está toda arrumada. Algo macio e gelado, do tamanho de uma azeitona preta, toca uma de suas pernas.
                - Bartolomeu! Desculpa, amigão, você deve estar morrendo de fome... – Abaixa-se, beija a testa do cachorro – vamos, vamos pegar a comida. Devagar, tira os fones. Nenhuma voz conhecida entre os latidos e o zumbido residual da música.
                Coloca a ração no pote, acaricia as orelhas do amigo e vai até o muro dos fundos. Com os braços sobre os tijolos, estica o pescoço: efeito acústico de colocar a cabeça dentro do bosque. Vê o chão, desde o pé, passando pelo caminho serpenteado até o arranjo quadrangular de pedras flanqueando as raízes do grande (escolher a árvore).
                Daqui em diante precisa aprofundar a angústia, até chegar ao desespero. Vai voltar para dentro da casa, estranhando a conversa baixa, quase em falsete. Chegará até a porta do quarto, ouvirá algo e sairá para o bosque, sentando-se ao pé da árvore. Criar contexto para dúvida excruciante que o atormenta – separação dos pais? Com quem irá ficar? No ápice do sofrimento, surge o homem. João Víctor sente a presença, olha para o lado e vê o homem. Começam a conversar.
- Sou a resposta para a pergunta que você sempre faz aí, dentro da sua cabeça.
- Que pergunta?
- Todas.
- Ãhn? Como assim, todas?
- Lembra na escola, a professora de Língua Portuguesa não ensinou que perguntas têm ponto de interrogação? Então, sou a resposta para todo ponto de interrogação que surge na sua cabeça.
- Fiquei mais confuso.

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