Conto n.2

- Vou dizer de outra forma: sabe aquela dúvida quando você precisa tomar uma decisão? Eu sou o fim da dúvida, sou quando você decide!
- E quando decido errado, é você?
- É. E não é ...
- É quando acerta e não é quando erra?
- Não. Sou e não sou quando você acerta e quando você erra.
- Então, pra que você serve?
- Sirvo pra que você continue a perguntar e responder, mesmo que ache a resposta errada.
- E por que você... quer dizer, eu... nós... por que nós erramos tanto?
- Você acha mesmo que nós erramos tanto assim?
(Enumerar erros?)
- Por que você acha que foram erros? Em vez disso, não seriam passos?
- Passos?
-Sim, como em uma caminhada. Não gostou?
- Achei estranho.
- Vou tentar de outro jeito: imagine que sua vida, todo o tempo em que você esteve vivo, fosse um longo rolo de filme antigo – (nota que o menino se perdeu) – você entende o que estou dizendo?
- Sim. Isso são frames. Essa coisa de “rolo” é antiga. E você, se sabe as minhas decisões e é mais velho que eu (e é mesmo eu) – como sei sobre um filme velho? Outra coisa, por que você não fala como será no futuro? Eu mesmo nem sei direito como é essa coisa de rolos de filmes. Se eu não sei, como é que você sabe?
- Como eu sei... sabendo, ora? E sei porque você sabe.
- Sei nada! Meu avô me contou uma vez como era o cinema na cidade dele, mas não entendi muito bem e não dei muita atenção. Tinha isso de rolos.
- E você pensa que eu esqueci esse dia?
- Eu esqueci! Como que você não?
- Não porque eu tenho que cuidar dos nossos passos, quer dizer, dos nossos frames.
- Falando nisso, vou filmar você. Pra que não digam que estou louco.
                Começa a filmá-lo com o telefone.
- Vamos, fale alguma coisa.
- Sim. Sobre o quê?
- Qual seu nome?
- Meu nome é João Víctor.
- Qual sua idade?
- Entre 35 e 40.

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